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Espectrário

Juliana Freire 

2025

Fotoperformance durante a I Residência Casa Tempo. 

Fotografia Vinícius Monte

Igreja Matriz do Bom Jesus, Buenolância, Goiás

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Guardando espectros, em corpo reflexivo.
 
Volto ao estudo anterior, de 2017, Interlúdio Akáshico
https://www.julianafreire.com/topologiademisterios


Observar-se observando e sendo observado.
 
As ruínas, os marcos, os memoriais, os templos, têm uma vida que não nos é acessível. E por inscreverem em camadas a passagem do homem por aquele solo, como estes espaços olham? Quantos olhos olham? Os dos sedimentos, os dos arquivos?
 
Uma vez no Alentejo, na pequena Gruta do Escoural, olhando pinturas e gravuras do Paleolítico Superior, abri o canal. Vi, por uma fração de segundos, que todos os tempos estavam ali ao mesmo tempo. Observei as pessoas agrupadas ali dentro, e assim que eu as vi, elas também me viram. Eu estava de capacete e roupa de proteção, luvas. Apesar do assombro, um sentimento de familiaridade, de pertencimento.
 
Ocupamos, em tempos diferentes, por segundos, esse nosso lugar, com talvez 20.000 anos de diferença. Me recuso a arquivar alguma imagem, nada poderia documentar a sensação. Eu não queria me apresentar àquelas pessoas de muitos tempos, em um prateado ruidoso.
 
Nesta série, processo em aberto, levei meu corpo - para alguns rascunhos da História.
Buenolândia, o marco zero esquecido. Corpo no centro. Almendres com 95 menires em círculo, que ainda seguram o céu, mesmo sem ninguém para ver. Corpo do jogo, da dança. Cemitério Bizantino de Igatu, como naves na rocha. Corpo de pouso-pássaro. Templo de Diana, que já foi templo de Júpiter, Juno e Minerva, e que já foi açougue. Corpo editado, deslocado. Capela dos Ossos em Évora, corpo pilhado, pedagogia do medo, ornamentos fantasmagóricos. Sem corpo. Castelo de Arraiolos, deriva, corrida, espaço aberto. Gruta do Escoural, corpo imaculado. Colunas, igrejas, ossos. Lugares que insistem em me olhar de volta.

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O S   C O R P O S   Q U E   N O S   O B S E R V A M

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Gruta do Escoural, Santiago do Escoural, Montemor-o-Novo, Portugal
Única gruta com arte rupestre paleolítica conhecida em Portugal. Descoberta acidental em abril de 1963 por operários de pedreira de mármore. Ocupação sequencial: 50.000 anos atrás por neandertais como abrigo de caça; 25.000 a 12.000 a.C. como santuário com mais de 100 pinturas e gravuras de cavalos, auroques e signos em pigmento negro e vermelho; 5.000 a 3.000 a.C. como necrópole neolítica com pelo menos 109 indivíduos. Monumento Nacional desde 1963. Visitas limitadas a 10 pessoas, com capacete e luvas. Na série Espectrário, não-fotografia por escolha da artista. Não existe inscrição sobre estas inscrições.

 

 

Cromeleques de Almendres, Évora, Portugal
6000 a 3000 a.C. Neolítico Antigo. Maior conjunto de menires estruturados da Península Ibérica. 95 monólitos em dois recintos elípticos, com gravuras e alinhamentos astronômicos para solstícios. Mais antigo que Stonehenge em 2 mil anos. Redescoberto em 1966. Monumento Nacional desde 2015.

 

 

Templo de Diana, Évora, Portugal
Século I d.C., época do Imperador Augusto. Templo romano hexastilo períptero, coríntio, com 14 colunas de granito e capitéis de mármore. Fazia parte do fórum de Ebora Liberalitas Julia. Chamado de Diana só a partir do século XVII, por lenda e reinvenção histórica. Serviu de fortaleza medieval, casa-forte e açougue municipal até o século XIX. Patrimônio Mundial UNESCO.

 

 

Castelo de Arraiolos, Alentejo, Portugal
1306, mandado erguer por D. Dinis I. Também chamado Paço dos Alcaides. Um dos raríssimos castelos de planta circular no mundo, com 250 m de perímetro e 13 torres. Construído no Monte de São Pedro sobre ocupação humana desde 300 a.C. Abandonado por ser frio e ventoso, foi saqueado e está em ruína desde o século XVII, agravado pelo terremoto de 1755. Monumento Nacional desde 1910.

 

 

Capela dos Ossos, Évora, Portugal
1816. Anexa à Igreja de São Francisco. Construída por frades franciscanos com ossos de cerca de 5 mil monges exumados dos cemitérios da cidade. Inscrição na entrada: "Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos". Arquitetura barroca do memento mori.

 

 

Cemitério Bizantino de Igatu / Mucugê, Chapada Diamantina, Bahia, Brasil
Meados do século XIX, após epidemia de varíola por volta de 1855. Conhecido como Cemitério Santa Isabel ou Cemitério dos Bexiguentos. Conjunto de mausoléus em alvenaria de pedra caiada, com arcos, cúpulas e pináculos que lembram mini-igrejas, chamado de bizantino pela população. Tombado pelo IPHAN em 1980 em Mucugê e em 2000 em Igatu. Símbolo do ciclo do diamante.

 

 

Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Buenolândia, Goiás, Brasil
1726. Primeira casa de oração erguida em solo goiano, por Bartolomeu Bueno da Silva Filho no Arraial da Barra, hoje distrito de Buenolândia. Marco Zero do estado de Goiás. Integra conjunto histórico com cruz e poço de estilo bandeirista. Em processo de tombamento definitivo e restauro de R$ 2,8 milhões em 2026 para o tricentenário da cidade de Goiás em 2027.



 

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Levei meu corpo para esses outros corpos em observação, estagnação, que sobreviveram à anulação.

Fantasmas do seu próprio apogeu.

Arquétipos de poder em estado de vigília ou pausa. Interlúdio, entreposto, não-certeza.

Sobreviveram ao 'progresso' ou à ruína por acaso, ou por seu acúmulo espectral?

Seus fantasmas ainda vivem ali?

Somos nós, corpos deste tempo, os fantasmas que assombram aquela civilização?

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A N O T A Ç Õ E S

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     Comecei este estudo em Minas, com meus sobrinhos e filha, com materiais cotidianos, relacionais, experimentando uma linguagem de aspecto mais tecnológico, mais sci-fi, mais alienígena. As performances com máscaras, após a pandemia, não estavam mais em meu campo de investigação. Os 'dispositivos' não têm relação com a ideia de contaminação ou proteção.

 

     Ganhou força em Portugal, quando fui com Vinícius Monte e Christophe Van Hamme fazer uma fotoperformance em Évora, para o Open Studio do B12Atelier. Era a primeira vez que eu e Vinícius íamos a Portugal. Antes de ir, investiguei quais eram os portais energéticos mais importantes perto de Lisboa. Queríamos nos relacionar com a nossa própria ancestralidade, para além, claro, das questões contracoloniais que vivenciamos politicamente. O magnetismo e o mistério dos Cromeleques de Almendres nos pareceu um campo amplo poético, justamente pelo seu esquecimento. Apresentamos no ateliê aberto em Lisboa, os primeiros frutos desta uma conversa com esse sítio arqueológico, desconhecido por alguns dos visitantes, e anterior à própria ideia de Portugal, de Brasil. 

 

O que liga Buenolândia a Almendres é o mesmo gesto de fundação por apagamento como camuflagem. Um tinha aldeia, outro agora é pasto. Em Buenolândia, 1726, Bartolomeu Bueno marca o Marco Zero de Goiás com uma igreja. Para marcar, precisa dizer que ali não havia nada. Já os cromeleques estavam ali há quase 8.000 anos, cobertos por uma bruma de invisibilidade. É um lugar 'não turístico', aberto à visitação. Este não-lugar em Almendres, entre 6000 e 3000 a.C., povos agro-pastoris do Neolítico, anteriores aos celtas, constroem um enorme santuário. Mais antigo que Stonehenge em 2 mil anos e não deixaram nome. Os Goyazes, que habitavam a Serra Dourada, viraram "povo fantasma" - sem sobreviventes, sem auto-denominação confirmada, talvez Tupi sertanejo cercado de Jê, talvez migrante amazônico. Dizimados por doença e violência bandeirante, absorvidos como fantasma na historiografia.

 

Dois marcos zero. Centro-Margem.

Um círculo de 95 pedras que dialoga com as estrelas.

Um nau de cabeça para baixo, navegando no céu, esta edificação chamada igreja, que apaga um povo para inventar um estado.

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​Estátua de Cora Coralina, Cidade de Goiás, Goiás
2020-2021, período da pandemia de Covid-19.

Estátua da poetisa Cora Coralina (1889-1985) coberta com papel alumínio e fita adesiva plástica pela Prefeitura de Goiás como medida de proteção e higienização. A imagem circulou como símbolo do isolamento do patrimônio.

 

Na pesquisa Espectrário, lida pela artista como performance involuntária de conservação - corpo nave.

Mesmo 'gesto' do capacete e da luva, necessário para visitar a Gruta do Escoural, no Alentejo, Portugal.

Corpos históricos embalados, protegidos ou isolados para não contaminarem ou serem contaminados.

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S A N T U Á R I O   A N C E S T R A L​
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Os cromeleques são monumentos megalíticos pré-históricos, construídos principalmente durante o período Neolítico e o início da Idade do Cobre (entre 4500 e 1500 a.C.). Erguidos por comunidades agrícolas e pastoris, a sua função exata permanece um mistério, mas acredita-se que desempenhavam papéis em rituais religiosos, cultos astrais ou como calendários primitivos. 

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A arquitetura megalítica propagou-se por toda a Europa, com as estruturas de Malta consideradas entre as mais antigas. A construção envolvia o trabalho coletivo de tribos que usavam troncos e cordas para mover e erguer as enormes pedras, conhecidas como menires. 

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Juliana Freire

2023

Fotoperformance em parceria com Vinícius Monte.

Fotografia Christophe Van Hame

Évora, Alentejo, Portugal​​

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ARRAIOLOS _ ALENTEJO _ PORTUGAL
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A história de Arraiolos, em Portugal, remonta a tempos antigos, com vestígios de ocupação desde o Neolítico e forte influência artística do período da ocupação muçulmana na Península Ibérica.

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Sua história documentada começa com a concessão de terras ao Bispo de Évora por D. Afonso II em 1217.

A vila recebeu seu primeiro foral de D. Dinis em 1290, que também ordenou a construção do castelo em 1305, e posteriormente um novo foral em 1511, concedido por D. Manuel. Arraiolos foi sede de condado para D. Nuno Álvares Pereira e é famosa pelos seus tapetes bordados, com origens que remontam a um período anterior ao século XV. 

 

A arte da tapeçaria em Arraiolos está ligada aos tapeceiros muçulmanos de Lisboa que, no final do século XV, foram forçados a sair da capital e se estabeleceram em territórios mais tolerantes, como Arraiolos.Os árabes já tinham conhecimento avançado em técnicas de fabrico e concepção artística, aproveitando a lã da região como matéria-prima principal. O ponto de bordado específico, um ponto cruz oblíquo, tem semelhanças com bordados hispano-árabes e foi conhecido por vários nomes em diferentes culturas antigas, incluindo a eslava. Os desenhos e a base estrutural dos tapetes de Arraiolos têm influência oriental, que se misturou com o conhecimento local e resultou numa forma única de artesanato artístico. 

 

A região possui vestígios de ocupação humana desde o Neolítico ou Calcolítico, presumivelmente desde o IV milénio a.C. Acredita-se que o topônimo possa ter derivado do nome de um governador grego, Rayeo ou Rayo.

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Performance Juliana Freire

Fotografia Christophe Van Hamme

Castelo de Arraiolos, Alentejo, Portugal.

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Castelo de planta circular, raro em Portugal, se ergue no topo do Monte de São Pedro.

No interior das muralhas, ruínas do Paço dos Alcaides e a Igreja do Salvador ou do Senhor Jesus dos Passos. 

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EVORA _ ALENTEJO _ PORTUGAL​​​​

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Performance Juliana Freire

Fotografia Christophe Van Hamme

TEMPLO DE DIANA

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Templo Romano de Évora, popularmente conhecido como Templo de Diana (embora incorretamente, pois era para o culto imperial a Augusto), é um dos monumentos romanos mais bem preservados da Península Ibérica, datado do século I d.C., localizado no coração do centro histórico de Évora.

Patrimônio Mundial pela UNESCO

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IGATU E MUCUGÊ

CHAPADA DA DIAMANTINA _ BAHIA _ BRASIL

 

 

O "Terno das Almas" em Igatu é um ritual de procissão em louvor às "Santas Almas Benditas", um patrimônio cultural imaterial da Chapada Diamantina, que ocorre em memória dos mortos. O ritual é realizado por um grupo de pessoas, frequentemente mulheres, que se cobrem com lençóis brancos e realizam a procissão durante a época de devoção aos finados, com o objetivo de honrar os ancestrais e a memória dos mortos. A prática é uma tradição ancestral, passada de geração em geração, ligada à história de Igatu e à devoção aos mortos.


As almas são tratadas como entidades sagradas, com o mesmo status dos santos no panteão católico. O ritual é um dos muitos elementos que compõem o patrimônio cultural da vila, forte ligação de seus moradores com as tradições funerárias e a memória dos ancestrais. O Terno das Almas pode estar ligado à história da garimpagem na região e às dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores que buscavam diamantes, que muitas vezes deixavam suas famílias para trás. Essa história, por sua vez, é preservada em outras manifestações culturais de Igatu, como o Museu do Garimpo e as Ruínas de Igatu. 



Fotoperformance - trabalho em construção.

Fotos da artista no Cemitério de Mucugê, cidade vizinha.
2022


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C A P E L A   D O S   O S S O S 

E V O R A  -  A L E N T E J O  -  P O R T U G A L

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Capela dos Ossos da Igreja de São Francisco, foi construída no século XVII por três frades franciscanos com o objetivo de refletir sobre a fragilidade da vida humana. As paredes e pilares são revestidos com milhares de ossos e crânios de cemitérios próximos, o que reforça a mensagem de transitoriedade inscrita na entrada: "Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.'

 

Construída no século XVII dentro do complexo da Igreja e Convento de São Francisco. A ideia partiu de frades franciscanos que desejavam

transmitir uma mensagem sobre a impermanência da vida. Além da reflexão espiritual, a construção também teve um propósito prático: dar um destino ao acúmulo de ossos de cemitérios da cidade, que estavam superlotados devido ao crescimento populacional e às epidemias. Cerca de 40 cemitérios locais foram esvaziados. As paredes e pilares foram revestidos com milhares de ossos humanos, incluindo crânios e fêmures. O teto é decorado com afrescos de 1810. A capela também abriga múmias de um adulto e uma criança.

Na saída da capela, há um painel de azulejos do arquiteto Siza Vieira.

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