T E M P L O D A S M U S A S N E O P I T A G Ó R I C A S
Construído em 1906 por imigrantes ucranianos e seguidores do médico e ocultista Dario Vellozo no bairro Abranches. Único templo neo-pitagórico existente. Vellozo fundou o Instituto Neo-Pitagórico para estudar música, matemática, filosofia, ocultismo, alquimia, magia, arte. Erguido seguindo a proporção áurea e os intervalos musicais pitagóricos. Diz-se que suas colunas dóricas não sustentam um teto, mas uma ideia: que o número é a essência de todas as coisas. É um lugar de iniciação laica. O espaço é desconhecido por muitos curitibanos, foi uma jornada conseguir acesso.
Gostaria de agradecer com profunda alegria, respeito e admiração, ao neto de Rosala Garzuze, A.Garzuze, que nos recebeu em julho de 2026. Também à Fer Motta que dedicou-se aos caminhos de acesso ao Templo, espaço cuidadosamente guardado por três gerações, santuário natural e do conhecimento. Antes de entrar no templo abri o canal e perguntei, como posso entrar de forma respeitosa? A resposta foi rápida: O templo gosta de silêncio. Ao entrar, na visita, percebi, ou ainda tento perceber, a importância da palavra e do significado de, silêncio.

O Templo das Musas Neo-Pitagóricas de Curitiba
40 anos antes do Templo Rosa-Cruz
O espectro da grande vanguarda brasileira
Em uma chácara no então distante bairro do Portão, hoje Vila Izabel, em Curitiba, um homem construiu com recursos próprios um templo grego de colunas jônicas no meio de uma mata de araucárias. Inaugurado em 22 de novembro de 1918, o Templo das Musas, sede do Instituto Neo-Pitagórico, foi uma das experiências mais vanguardistas do Brasil no início do século XX.
Vanguarda em um sentido literal: O Templo das Musas é mais de 40 anos mais antigo que o Templo Rosa-Cruz de Curitiba.
A Grande Loja da AMORC só chegou ao Brasil em 1956, no Rio de Janeiro, e só foi transferida para Curitiba em 1964. Seus templos em estilo egípcio no Bacacheri só foram construídos entre 1961 e 1963. Ou seja: quando a AMORC ainda nem existia no Brasil, Dario Vellozo já fazia em Curitiba, desde 1909, reuniões, rituais, concertos, festas pagãs e educação laica inspiradas em Pitágoras. O Templo das Musas não tem nenhuma ligação com os rosa-cruzes, é um templo que se mantém de forma independente, brasileiro, simbolista e neo-pitagórico.
Dario Persiano de Castro Vellozo (Rio de Janeiro, 26 de novembro de 1869 — Curitiba, 28 de setembro de 1937) chegou a Curitiba em 1885, com 16 anos, filho de Cyro de Almeida Vellozo, que seria um dos primeiros prefeitos eleitos da cidade. Professor do Ginásio Paranaense e da Escola Normal, tipógrafo, maçom, homeopata, poeta simbolista, educador e editor, Dario foi o maior agitador cultural de Curitiba entre 1890 e 1937. Ele fundou e dirigiu revistas como O Cenáculo, Esfinge, Ramo de Acácia, Pitágoras e Brasil Cívico. Foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Paranaense, em 1900. Sua obra mistura poesia, filosofia, pedagogia e esoterismo: Ephemeras (1890), Esquifes (1896), Hélicon (1908), Livro de Alyr (1920), além de dois livros didáticos que formaram gerações de paranaenses, Lições de História (1902) e Compêndio de Pedagogia (1907). Dario não queria apenas escrever sobre a Grécia. Ele queria viver a Grécia no Brasil. Seu projeto era transformar Curitiba em uma "pólis grega tropical". Para isso, ele criou em 1909 o Instituto Neo-Pitagórico e, em 1918, construiu com seu próprio dinheiro, em um quarteirão que comprou no Portão, o Templo das Musas. O projeto foi do arquiteto e poeta maranhense Mariano Alves de Farias, refugiado político que se identificou com as ideias de Dario. O Templo tinha biblioteca com mais de 70 mil volumes, incluindo a única edição completa no Brasil da Encyclopédie francesa, de 1750. Tudo se perdeu no incêndio da madrugada de 25 de agosto de 1987. O Templo foi reconstruído pelos próprios associados, sem ajuda oficial, liderados pelo professor Rosala Garzuze.
Templo como escola, vida. Atividades:
Estudar Pitágoras - Não só matemática, mas a filosofia pitagórica completa: harmonia, música, número, reencarnação, vegetarianismo, vida comunitária, silêncio e purificação. Festas da Primavera (1910-1913) - Desfiles pelas ruas de Curitiba com pessoas vestidas de togas gregas, templos de madeira montados no Passeio Público e no Clube Curitibano, declamações de poesia, competições esportivas e poéticas, coros e bailes. Em 1910, Emiliano Perneta recitou o poema "Sol" em homenagem a Dario. Em 1911, Perneta foi coroado Príncipe dos Poetas em um templo grego de madeira. Concertos e saraus - Dario era músico e maestro. O Templo tinha concertos de música erudita, com peças dele e de compositores europeus. Educação laica e moderna - Dario defendia a Escola Moderna: laica, pública, obrigatória, anticlerical. Ele fundou em 1914 a Escola Brazil-Cívico, em Rio Negro. O Templo era a extensão desse projeto.
Debates de livre-pensamento - Teosofia, espiritismo, maçonaria, feminismo, anarquismo e simbolismo conviviam no mesmo espaço. Um escândalo para a Curitiba católica e conservadora da época.
Templo era o ponto de encontro da elite intelectual dissidente de Curitiba.
Pela pesquisa, este era o núcleo central: Emiliano Perneta (1866-1921) - O Príncipe dos Poetas do Paraná, melhor amigo de Dario. Coroado no Passeio Público. Rocha Pombo (1857-1933) - Historiador e escritor, parceiro de Dario em vários projetos. Silveira Netto, Julio Perneta, Antonio Braga e Nestor Victor - O grupo do Cenáculo, o núcleo do Simbolismo paranaense. Francisco Pereira de Macedo - Advogado, procurador-geral do Paraná, amigo de Dario desde o ginásio, vizinho de chácara em Santa Quitéria. José A. Sotto Mendes e Luiz Chrisostomo de Postiglione - O médico kardecista argentino que manteve em Buenos Aires uma instituição com os mesmos ideais, internacionalizando o movimento. Paulo Leminski (1944-1989) - Décadas depois, adolescente, foi frequentador assíduo da biblioteca do Templo. Considerava Dario o poeta simbolista mais importante do Paraná. Para Leminski, a ruína do Templo era a lente para ler Curitiba. Décio Pignatari - Outro frequentador da fase final do Instituto. Rosala Garzuze (1906-2010) - Genro e principal discípulo de Dario. Preservou o Templo por mais de 70 anos, até os 103 anos. Foi ele quem reconstruiu o Templo após o incêndio.
Quem eram as Musas?
São muitas musas. Em uma camada, são as nove filhas de Zeus e Mnemósine, que dão nome ao Templo:
Calíope - Poesia épica e eloquência
Clio - História
Erato - Poesia amorosa
Euterpe - Música e poesia lírica
Melpômene - Tragédia
Polímnia - Hinos sacros
Terpsícore - Dança
Tália - Comédia
Urânia - Astronomia
Em outras camadas,
As filhas de Dario: Violeta, Carmen, Zulmira, Alcione, Lysis, Isis e Alyr. Não por acaso, os nomes de suas filhas aparecem em seus livros. Também, as mulheres que aparecem nas fotos abaixo, a vanguarda feminina de Curitiba. Como grande parte do arquivo do Templo se perdeu no incêndio de 1987, não é possível identificar com 100% de certeza, mas a pesquisa histórica permite identificar quem eram as mulheres que circulavam naquele círculo:
O Grêmio das Violetas
O grupo feminino mais importante do Templo. Formado por alunas normalistas - futuras professoras - que organizavam as Festas da Primavera, costuravam as togas gregas, preparavam os cortejos com guirlandas e elegiam a Chloris, a Rainha da Primavera. Eram elas que davam corpo, literalmente, às Musas. Sem o Grêmio das Violetas, não haveria Festa da Primavera.
Mariana Coelho (1857-1954)
A pioneira do feminismo no Brasil. Educadora portuguesa que chegou a Curitiba em 1893, fundadora do Colégio Santos Dumont e diretora da Escola Profissional Feminina. Escreveu A Evolução do Feminismo: subsídios para sua história (1933), com prefácio em forma de cartas de Dario Vellozo e Rocha Pombo. Mariana frequentava o círculo de livre-pensadores de Dario, defendia a emancipação feminina e a educação laica. Era a Musa intelectual do grupo.
Angela Vargas
Declamarora homenageada em uma das fotos mais reproduzidas do Instituto. Na foto, ela aparece ao lado de Dario, que está no centro. Angela representava a Musa da declamação, da voz, da poesia falada - a Calíope viva do Templo.
Didi Caillet
A jovem celebridade nacional da época. Segundo lugar no concurso Miss Brasil de 1928, Didi encantou multidões e ditou moda em Curitiba. Ela simboliza a "nova mulher" dos anos 1920 que frequentava os saraus do Templo: sem espartilho, de saia curta, cabelo curto, frequentando teatros e festas literárias - um escândalo para as moças católicas de boa família.
Escolástica Moraes Vellozo
Esposa de Dario, com quem teve 12 filhos. Vishnu. Ou Nanã. Mãe da família que sustentou o Templo. Sem ela, o projeto não poderia ter cruzados 3 gerações.
Entre tantas 'musas', segundo a pesquisa, as mulheres que estão retratadas nas imagens são professoras normalistas, declamadoras, feministas, poetisas e filhas de Dario vestidas de Musas gregas, reivindicando, em 1910, o direito da mulher à vida pública, à arte e ao corpo livre - 20 anos antes do voto feminino no Brasil.
Por que o Templo das Musas é vanguarda?
Por três motivos que nenhum outro templo em Curitiba pode reivindicar:
1. Cronológico: 1918. Quatro décadas antes do Templo Rosa-Cruz. Seis anos antes da Semana de Arte Moderna de São Paulo já fazer escândalo com o modernismo, Dario já fazia performance, instalação e ritual pagão nas ruas de Curitiba.
2. Pedagógico: Dario defendia escola laica, pública e obrigatória quando o Brasil ainda era dominado pela Igreja Católica na educação. Ele era precursor do laicismo no Paraná.
3. Feminino: Enquanto a maioria das ordens esotéricas da época excluía mulheres ou as colocava em papéis secundários, o Templo das Musas colocava as mulheres no centro - como Violetas, como Chloris, como declamadoras, como educadoras. O feminismo de Mariana Coelho encontrou ali um dos seus primeiros palcos.
O TEMPLO DAS MUSAS é o primeiro laboratório de arte, educação e liberdade de Curitiba.
Está longe de ser, uma curiosidade esotérica. E ele ainda existe, com aulas e encontros.
Na Rua Professor Dario Vellozo, 460, Vila Izabel, Curitiba.
Reconstruído das cinzas, mantido até hoje pelo Instituto Neo-Pitagórico.
Grata à família Garzuze-Vellozo e os associados do Instituto pela manutenção do Templo e do santuário natural.
Matéria de Pedro Ivo Dubra, de 17 de maio de 2004:
Influenciada pelo escritor, a intelectualidade local tomou gosto pela Antigüidade, sobretudo nos anos 1910 e 1920. Trajes, hinos e competições atléticas despontaram. Uma "Nova Hélade" se plasmava no sul do Brasil.
Acompanhando o frenesi do helenismo, havia o simbolismo, estabelecido desde 1893. A forte presença européia e a ida de paranaenses ao velho continente, onde travavam contato com as modas da literatura, explicam a eclosão e o interesse pelo movimento, que privilegiava uma visão simbólica e espiritual do mundo, explorando as sensações subjetivas.
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/turismo/fx1705200406.htm
Fontes para aprofundar:
Câmara Municipal de Curitiba - Rua & História: Dario Vellozo
Maria Lúcia de Andrade - Educação, Cultura e Modernidade: O Projeto Formativo de Dario Vellozo (1906-1918) - UFPR, 2002
Caio Ricardo Bona Moreira - Os Tempos de Dario Vellozo: Poesia e Magia, 2022
Ariete Nasulicz Beltrami - Proezas Alquímicas: a ciência e o esoterismo de Dario Vellozo - UnB, 2009
Revista Brasileira de História, vol. 40, n. 84 - Recepções da Antiguidade e usos do passado
Alexandra Padilha Bueno - Mariana Coelho: educação e feminismo na trajetória de uma intelectual luso-brasileira
webgrafia:
https://www.pitagorico.org.br/
https://paulodafigaro.blogspot.com/2014/12/dario-vellozo-e-seu-templo-das-musas.html
https://revistahaus.com.br/haus/estilo-cultura/onde-as-musas-ainda-dancam-2/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Instituto_Neo_Pitag%C3%B3rico_-_Templo_das_Musas.jpg
https://www.patrimoniocultural.pr.gov.br/Bem-Tombado/Instituto-Neo-Pitagorico-Curitiba
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/turismo/fx1705200406.htm
https://muraldoparana.com.br/dos-leitores-1-cassiana-a-inteligencia-na-mostra-do-templo-das-musas/
https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/sobretudo/em-homenagem-ao-templo-das-musas-neste-dia-comercial-dos-namorados/
Leminski _ https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2025/08/relacao-de-amor-e-odio-por-curitiba-impregnou-obra-de-paulo-leminski.shtml

C O R P O R E F L E X I V O
Juliana Freire
2026
Colaboração de Fer Motta e Olga Freire Maia
Fotomontagens elementais, plantas, e o conjunto arquitetônico do Templo das Musas, Curitiba, Paraná, Brasil
+ colagem digital livro Plantstudie - Karl Blossfeldt.
30 cm de altura x 21 cm de largura - Impressão FineArt, papel algodão 300 g
Pesquisa em andamento






































